Anna Akhmatova: poetisa russa do início do século XX

SEPARAÇÃO

Nem semanas nem meses – anos

levamos nos separando. Eis, finalmente,

o gelo da liberdade verdadeira

e as cinzentas guirlandas na fachada dos templos.

 

Não mais traições, não mais enganos,

e não me terás mais de ficar ouvindo até o amanhecer,

enquanto flui o riacho das provas

da minha mais perfeita inocência.

 

(1940)

 

 

MÚSICA

 

“Algo de miraculoso arde nela,

fronteiras ela molda aos nossos olhos.

É a única que continua a me falar

depois que todo o resto tem medo de estar perto.

Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar

ela ainda estará comigo no meu túmulo,

como se fosse o canto do primeiro trovão,

ou como se todas as flores explodissem em versos.”

 

 

DE “OS MISTÉRIOS DO OFÍCIO”

“De que servem exércitos de canções

e o encanto das elegias sentimentais?

Para mim, na poesia, tudo tem de ser desmesurado,

e não do jeito como todo mundo faz.

Se vocês soubessem de que lixeira

saem, desavergonhados, os versos,

como dente-de-leão que brota ao pé da cerca,

como a bardana ou o cogumelo.

Um grito que vem do coração, o cheiro fresco de alcatrão,

o bolor oculto na parede…

E, de repente, a poesia soa, calorosa, terna,

Para a minha e tua alegria.”

           

           

ATRAVÉS DOS ESPELHOS

(dois poetas e a musa)

“Esta beldade é muito jovem

mas não é deste século.

Não ficamos sozinhos pois – a terceira –

ela nunca nos abandona.

Puxas para ela uma cadeira

e eu, generosamente, divido com ela minhas flores…

O que estamos fazendo – nem nós mesmos sabemos

mas, a cada momento, mais isso nos assusta…

Como quem saiu da prisão,

sabemos algo um do outro,

algo terrível. Estamos num círculo infernal.

Mas talvez isto não sejamos nós.”

 

 

 

TREZE VERSOS

 

E finalmente pronunciaste a palavra

não como quem se ajoelha,

mas como quem escapa da prisão

e vê o sagrado dossel das bétulas

através do arco-íris do pranto involuntário.

E à tua volta cantou o silêncio

e um sol muito puro clareou a escuridão

e o mundo por um instante transformou-se

e estranhamente mudou o sabor do vinho.

E até eu, que fora destinada

da palavra divina a ser a assassina,

calei-me, quase com devoção,

para poder prolongar esse instante abençoado.

 

 

À MUSA

 

Quanto, à noite, espero a tua chegada,

a vida me parece suspensa por um fio.

Que importam juventude, glória, liberdade,

quando enfim aparece a hóspede querida

trazendo nas mãos a sua rústica flauta?

Ei-la que vem. Soergue o seu véu,

olha para mim atentamente.

E lhe pergunto: “Foste tu quem a Dante

ditou as páginas do Inferno?”. E ela: “Sim, fui eu”.

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